Terezinha Rovaris

 

Lauro Junkes

 

Iara

 

Oswaldo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SONHO DA TERRA

(de Nelo e Pina)

 

Neste livro, o autor descreve com muita propriedade e elegância fatos do passado de sua família tirados dos escaninhos da memória privilegiada que possui e nos brinda com um lindo reato da trajetória de seus pais e um grupo de amigos desde a terra de origem a te a terra sonhada e desconhecida que os faria enfrentar uma gama de situações as mais inesperadas e todas com muita coragem e determinação.

 

Nelo e Pina, personagens centrais do livro sonharam e unidos e abençoados por um casamento sólido dão o exemplo ímpar de vontade de vencer.

 

O autor nos transfere a um passado onde o sonho da terra estava vivo e nos coloca no centro dos acontecimentos.

 

O linguajar singelo daquele punhado de gente que o autor descreve, seu sotaque italiano abrasileirado dá um toque especial aos relatos.

 

O autor ainda nos brinda com a tradução de grande número de vocábulos italianos dando-nos um melhor conhecimento dos diálogos estabelecidos entre eles.]

 

Parabenizo o autor pelos maravilhosos sentimentos ditados por seu coração e expressos em seu livro: amor, ternura, trabalho de equipe, solidariedade, amor à terra, construção de uma família cristã, enfim, outro livro eu teria que escrever para dizer tudo o que meu coração sente principalmente o episódio em que Pina deixa, juntamente com sua família, a terra de sua propriedade que foi o sonho dela e de seu amado Nelo que Deus dignou-se chamar para perto de si, prematuramente.

 

“Sonho da Terra” é o livro cuja leitura é capaz de despertar nos leitores sentimentos muito doces que embalam e fazem sonhar.

 

O autor foi feliz nos seus escritos e o parabenizo por eternizar tais fatos e por ser membro dessa família, “exemplo de vida”.

 “A geração atual está carente da leitura que evidencie o que foi a vida de seus pais; ela deve perceber que viver não se aprende com costumes esnobes e levianos. Apenas os exemplos dos pais podem motivar as gerações jovens para a vida feliz e segura. Os de formação humana sólida são capazes disto. Infelizmente os pais, sem compromisso com a natural e indispensável disciplina familiar, se tornam pequenos bonecos dos caprichos dos filhos cada vez mais insistentes e exigentes do que lhes apresenta a mídia, mercantil e voluptuosa, e vão desestruturando a vida da família e comprometendo a sociedade.

 

Sonho da Terra é um livro que deve ser adotado como leitura obrigatória nas escolas e grupos de formação.”

 

Em Florianópolis, aos 21 de junho de 2 006.

 

Assinatura de Terezinha Rovaris. 

 

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SONHO  DA  TERRA

“O negrume da noite, por fora, nada é se posto ao lado da escuridão do espírito, como o exterior asco da cobra muito pouco representa se comparado ao poder de destruição que tem por dentro, na ruína da composição e estrutura do sangue. O instinto sabe” p. 204).

 

            Escrever não é mais arte inatingível e torna-se escritor quem assume o desafio de dedicar-se ao cultivo da escrita. Hoje que as fronteiras entre ficção e realidade se tornaram tão tênues que se torna complexo definir qual das duas facções é mais arrojada, o convite para escrever se infiltra em toda parte. Por isso, projetam-se com freqüência nomes novos no campo das letras. É o caso de Cornélio Angelo Marcon, que não permitiu se esfumassem no vazio de tradições e vivências familiares, perenizando-as na narrativa Sonho da Terra (Fpolis: Ed. Autor, 2005), cuja classificação se torna difícil, porque pode ser lida como um romance ao mesmo tempo que constitui toda uma crônica familiar e se apresenta praticamente como um documento histórico.

            Essa narrativa nos apresenta a história da família do autor – os pais Nelo e Pina, a seqüência quase infindável de meninas que nascem: Ida, Adélia, Mira, Elvira, Judite, (as amadas le sue tosete), até que surge um representante masculino, o próprio autor Cornélio, continuando com outras tantas meninas: Verônica, Terezinha, Maria, Lurdes, Cecília... Consta literalmente: “O que assenta estes fatos, com cinco anos, mais a metade de um, levou os chapéus para a nova casa na companhia de Judite, com fadiga pela subida, pelas pedras soltas do caminho” (p.140).

Como se trata de colonos italianos vindos do Rio Grande do Sul para o planalto catarinense, há inúmeras expressões italianas entremeadas no texto. A época fundamental abrange as décadas de 1930 e 1940. O que o autor focaliza muito bem são os árduos inícios da família, nas exigências do cultivo da terra – primeiramente terra de outro dono, que exige a metade da colheita. Mas o convicto e persistente “sonho da terra” não arrefece e Nelo aos poucos vai ampliando suas economias para comprar terras próprias, mesmo assumindo prestações para dez suados anos. O trabalho é intenso e não se restringe a oito horas diárias; a comida sóbria concentra-se em polenta e peixe; o luxo não tem vez, mesmo que a vontade dos pais seria de apresentar le sue tosete com belos vestidos. O que não pode esmorecer é o ideal sempre aceso na esperança de produzir-se e firmar-se  com segurança.

Sucedem-se as gravidezes de Pina, enquanto as meninas crescem e, um dia, pitorescamente, cozinharam o cãozinho La Cagneta (p. 98). Após esperas e apreensões, finalmente nasce o menino no Leãozinho, 1944. Mas a crise redobra: os porcos morrem e as promissórias clamam. O capítulo quatro retrata as esperanças, as lutas, a pobreza e as carências, enquanto se redobram o trabalho e a vontade inquebrantável de vencer.

O destino, porém, não dá tréguas. Quando Nelo dispõe de razoável lote de porcos e os leva para vender em Capinzal e obter algum recurso, na mais ingênua surpresa, o guarda o prende, porque a carroça de bois não tem placa. Não se rende e, na agitação nervosa das inesperadas exigências, logra vender os porcos e fazer o registro da carroça, obtendo sua habilitação.

                O centro épico de toda a saga é Nelo – um homem que não hesitou em empenhar e desgastar sua vida para oferecer condições de vida para sua família de 12 filhos, na maioria mulheres, sem maior auxílio do braço auxiliar de homens para o amaino da terra. Na rusticidade do viver na dependência da natureza, o capítulo 9 – “A imagem de Nelo” – instaura a imagem “heróica” de  Nelo, um rei no seu reino, até mesmo enfrentando touro brabo. Nelo nunca pára nem desanima; seu espírito intrépido, positivo e empreender não perde tempo: trabalha em terreno alheio, adquire sua própria terra, constrói casa simples, constrói casa melhor, compra jipe..., mas, afinal, também morre: “Nelo morreu! – respondiam no olhar, no berro, na quietude de bois; clamavam, as plantas, as folhas, as flores. Nelo morreu! Respondiam as laranjeiras, as reses de sal alimentadas. Nelo morreu! Diziam nos peraus as feras calmas e as béstias feras, juntando-se aos inanimados...” A narrativa cresceu até autêntica apoteose épica, mesmo no mais rústico território. “Nelo, Albinelo, Albino è morto, morreu! (... mas está aqui por nós e por todos!Altiloqüente...” (p. 212).

            Sobressai sempre a sadia relação entre o homem e a sua terra – com sua produção, seus porcos, seu rebanho de gado. Na harmonia, tudo cresce, porque energias invisíveis tudo perpassam. Trata-se de uma narrativa que, sem artificialismos nem exorbitâncias, exalta a tonalidade épica e dramática da árdua e pertinaz luta para extrair da terra o sustento e o progresso, mas sabe dosar tudo mui apropriadamente com o sentimento lírico, afetivo e humano, nesse convívio entre a terra e a gente. Ressalte-se, por isso, a cosmovisão positiva, sem desfazer a persistência do árduo esforço, a irremovível fé em Deus e no empreendimento humano, a decisão imbatível de não recuar, não desanimar, não deixar-se abater. Nelo, enfim, encarna  o autêntico heroísmo cotidiano. E o capítulo final “O Filme que Nelo não viu” atesta que o Sonho da Terra não morreu, mesmo com os filhos tomando diferentes direções.

            O relato, aos poucos, vai desdobrando horizontes mais amplos, para além do estritamente familiar. Assim, a terceira parte inicia com ampla digressão sobre a região planaltina, com destaque para os tropeiros que a percorrem, incluindo  a história de Homero de Albuquerque de Carvalho Branco, que alertava sobre  as ameaças da RVSCPR. Nelo recebe visitas de passagem da tropa de Chico/Francisco Almeida, hospedando-o de noite. Trata-se de vaqueano de profissão, que recorda histórias do passado da região, no tempo da estrada das tropas, da construção da estrada de ferro SP-RS, com a invasão das terras dos posseiros, destacando a miscigenação havida entre bandeirantes paulistas com índias. A boa síntese de Chico reaviva os momentos do levante das terras e a divisão política de 1916.

            Num das viagens, Chico perturba o sossego dos caboclos de hoje, ao afirmar que as terras por eles compradas continuam “contestadas” por dono de legítimos documentos – o que levanta nos novos proprietários verdadeiro terror de serem expulsos do que tanto lutaram por adquirir. Nelo, com as novas terras pagas adiantadamente, enfrenta insônias, atormentado ante a incerteza da posse definitiva do terreno. E um dia, homens bem educados trazem para assinatura dos colonos um documento que seria a declaração de posse das terras que todos assinam, sem ler o documento. Entretanto, de noite, Nelo descobre que se trata de procuração que cede os direitos da terra mediante anulação da segunda escritura que os ocupantes têm. Sobrevém desespero e suas crenças lhe asseguram que se manifesta “a terceira cabeça do Cão!”. Mas Nelo, sempre decidido e com o inerradicável “Sonho da Terra”, lidera a organização dos colonos para imediata   intervenção de advogado visando à anulação da procuração assinada. Os tempos correm, repetem-se as ameaças de despejo das terras legitimamente adquiridas, para aumento de dinheiro despendido com advogado para defesa. Vencem, porém, a persistência, o empenho, o sofrimento e a angústia dos legítimos produtores da terra. 

A narrativa sabe registrar, de uma parte, a decisão irrevogável da dedicação ao trabalho, por outro, a autenticidade de vida em contato com a terra, em harmonia pura e singela com a natureza, reforçada por profunda convicção religiosa, em plena simplicidade, quase ingênua. Sempre surgem compensações para quem se esforça, e “por fim, o vinho bom, à disposição na cantina da casa. Setecentos, mil ou mais litros, conforme a produção do ano, ao dispor  da alegria e do convite da alimentação da família. Nas refeições, na acolhida das visitas e, aos domingos, nas disputas do quatrilho...” (p.170). Embora sacrificada, a vida no campo preservava maior integridade e humanidade: “Nelo sabia de seus filhos. Entretinha-se a conversar com Pina. Quantos domingos, os dois, entre uma cuia e outra, a avaliação faziam deles, filhas e filho; estes, embebidos nas brincadeiras ingênuas e puras, nem ouviam as falas de Nelo e Pina”.

            Estruturalmente, o relato desse Sonho da Terra mantém  profunda fidelidade cronológica, o que contribui para ressaltar o espírito persistente e intrépido de Nelo, extraindo da terra o sustento e o progresso. Nesse contínuo temporal, entretanto se enxertam histórias, episódios e um longo excurso que acentua como, no planalto catarinense, foi árdua a conquista da terra, pois a problemática vivida no tempo do Contestado não foi episódica, prolongando seus lastros por décadas na região. Enxerta-se, por exemplo, a história do leão que, em tempos passados, aterrorizava a região, até que um grupo organizado logrou caçá-lo; mas, na época de preparação/catequese para 1ª. Comunhão de Ida e Adélia, a catequista aproveita para uma lição: “Temos um leão dentro de nós” Multiplicam-se versões confusas sobre a história de moça que foi matada. Outro fato catastrófico narra como Delfina, grávida, foi morta por touro. E a vida na roça sempre traz surpresas, como quando um tamanduá abraça e asfixia um cachorro; Adélia teve visão da cobra que abateu a irmã Mira, gritou e, com ajuda dos cachorros, salvou-a, na rápida providência de antídoto, mesmo com 30 quilômetros até Capinzal, percorridos a cavalo; Mira e Néio visitam a antiga casa e, por um descuido, Mira acaba deitando fogo no paiol, que é devorado pelas chamas.

            Destaque-se, enfim, a linguagem escorreita, mas sem pedantismos. O entremear-se de expressões em italiano perpassa todo o texto. O narrador vai incorporando, no pitoresco da linguagem,  observações singulares, como: “Para Nelo, a vida, os fatos que ela lhe trazia estavam sendo textos de leitura difícil” (p.127); “Para as meninas a vida não passava de um bando de andorinhas a chilrear pelo espaço celeste e a crescer em cada encontro” (p.132)

Adiantava-se a tarde de um dia de estio, o sol quase a pôr-se na caixa do sono” (p.145); “E Nelo pensava e dizia que somos livres na escolha de caminhos, mas constrangidos às pedras que eles têm” (p.189). Inevitável referência deve ser feita à técnica do monólogo interior, recurso muito adequadamente utilizado em relação a Nelo. Sucedem-se seus solilóquios, sobretudo nos tempos iniciais de casado – afinal, é pessoa que vive muitas vezes sozinho, enclausurado nas suas preocupações e responsabilidades para sustentar a crescente família e conquistar o progresso da região, pelo que, com freqüência, de sua mente fluem cogitações e planos infindáveis.

            Romance histórico ou crônica familiar, esse relato nos instiga: oxalá muitas regiões do Estado produzissem outros tantos Sonhos da Terra, e teríamos um registro autêntico, um mapeamento vigoroso da saga da nossa gente, intrépida e empreendedora, gente que propiciou a ocupação do nosso território, a fixação do homem na terra, o empenho pertinaz dos que extraíram da terra o progresso.

Lauro Junkes

Presidente da Academia Catarinense de Letras 

 

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Marcon! Finalmente, né?

                  Leitura surpreendente! Misto de história, antropologia, romance, suspense, mitos, mas, principalmente um pensar existencial: quem sou? O que quero? O que posso fazer?

                  Na trajetória de vida de Ânder e Beatrice, percebe-se na relação que eles estabelecem com o mundo, através de seus questionamentos no decorrer da história, e de suas atitudes, o que na psicologia analítica chamamos de “processo de individuação”, processo este, de diferenciação psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual. A individuação envolve uma consciência crescente da nossa realidade psicológica única, incluindo as forças e limitações pessoais, e, ao mesmo tempo, uma apreciação mais ampla da humanidade em geral.( Léxico Junguiano).

                  Citei os dois, mas no decorrer da história, chegando ao final, pode-se perceber indícios desse processo em Alice quando ela através de cenas com o espelho e outras, mostra questionamentos em relação a estruturação como mulher, como pessoa, buscando resgatar sua identidade. Através de seu adoecer, ela mobiliza esse se EU para encontrar o eixo, a busca do equilíbrio. O processo se dará se ela perceber a necessidade de transformar as dificuldades, as necessidades, os problemas, as angústias, em fonte de energia interior, em esperança que a conduza a encontrar novos objetivos e novas formas de lutar por sua vida, através de um estado harmônico interior em que expressa o processo de voltar a olhar para si mesmo e reconhecer-se como é, sem máscaras, o que gosta, o que não gosta, quais são seus objetivos, suas qualidades, bem como suas dificuldades.

                  Isso envolve um movimento para dentro e para fora, uma introspecção profunda, e aqui cito Agair, que diante das dificuldades enfrentadas, permitiu-se conhecer sua queixa mais íntima e, ao mesmo tempo religar-se para fora com símbolos, mitos e rituais que se abrem à condição humana, permitindo-lhe uma reflexão existencial coletiva. (TCC Iara)

                  Gostei do que você escreveu na orelha. Chama atenção.

                  Algumas falas de autores sobre vontade, citada no meu TCC, somente como material a mais:

                  Segundo Assagioli (1984), citado em ANGERAMI-Camon (2004): “Em algum ponto, talvez durante uma crise quando o perigo ameaça, ocorre um despertar no qual o indivíduo descobre sua Vontade”. (ANGERAMI-CAMON, 2004, p.139)

                  Assagioli (1984), citado em ANGERAMI-Camon (2004), diz que:

 

(...) a revelação de que o Self e a Vontade estão intimamente conectados pode mudar toda a percepção que uma pessoa tenha de si mesma e do mundo. Ela vê que é um sujeito vivo, com o poder de escolha, de relacionar-se, de provocar mudanças em sua própria personalidade, nos outros, nas circunstâncias, diz ainda, que é impossível descrevê-la e que a Vontade é uma questão de experiência direta, que deve ser vivenciada pelo indivíduo em particular.  (ANGERAMI-CAMON, 2004, p.140).

  

Libertando a vontade do Self, se ganha a liberdade de escolha, a responsabilidade pessoal, o poder de decisão sobre as próprias ações, procura-se nivelar a vontade pessoal com uma vontade mais universal, encontrando então um significado e um propósito mais profundo, tanto a nível pessoal como a nível coletivo, desenvolvendo uma capacidade de ação mais eficiente e serena, num espírito de cooperação e boa vontade.

 

Iara

 

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SONHO DA TERRA

 

O suor com sabor de sal e sangue de um grupo de vidas, cheio de muita espiritualidade, honestidade e de luta para conseguir o seu humilde espaço com trabalho sobre-humano, às vezes até desumano, é a tinta do escritor Cornélio Ângelo Marcon em Sonho da Terra.

 

Como já respondi anteriormente, não sou crítico, mas preciso atender ao seu pedido de opinião endereçado no primeiro e-mail.

Inicialmente, confesso que deparei com um escritor de vasta cultura – Cornélio Ângelo Marcon – que fez literatura de feitos e fatos domésticos de sua família. Realmente, não escreveu um livro, mas sim uma obra literária, recheada de detalhes que serviram também para engrossar a história, sob uma linguagem rebuscada e de um português casto. Li o seu livro de capa a capa, relendo determinados trechos, pois, na sua história revi bastante a de minha família, também de italianos (meu pai nasceu em Canéva – Udine- Alta Itália como dizia minha nona).

 

Devolvo-lhe, com louvor, os parabéns que me enviou pela poesia.

 

No livro, logo de início, uma requintada descrição geográfica, já enfocando a imagem de luta e competitividade entre a flora e a fauna, com representatividade nos seres humanos, afundando-se inclusive no relato geológico. Há uma oferta didático-cultural nessa exploração que leva o leitor a relembrar os bancos escolares para quem já por eles passou e auxilia quem neles ainda encontra-se, isso sem muito esforço, pois, ato contínuo, há a tradução em linguagem popular. Qual detive de Aghata Christi ou Conan Doile e porque não de Jô Soares (O Detetive de Back Street), o escritor Cornélio perscruta a voz dos meandros da natureza no sibilar das florestas e cantos das águas. Nada escapou. É de impressionar que o escritor tenha anotado até o fôlego da família Marcon, e com hálito italiano. Até parece que veio anotando em ‘caderninho’ os fatos, desde a sua infância. Há uma preciosidade de detalhes. Por outro lado, tenho certeza que não foi fácil ordenar sequencialmente o ritmo dos acontecimentos, dentro de lirismo, protesto, denúncia, o que deve ter exigido um longo tempo e muito rascunho de papel e eletrônico.

A demonstração de amor e carinho pela família é sentida o tempo todo da leitura.

Que bom que você foi bem criado!

(Chego a me arriscar a dizer que você se daria bem escrevendo romance policial ou ficção científica e também político, tal a criatividade para descrever mínimos detalhes).

 

Essa investigação deixa de herança uma fatia da história de colonização que veio se continuando dos anos e séculos anteriores. O autor versatiliza sua descrição na menção detalhada de ambientes, utensílios, costumes, moradias, cuidado em atitudes pessoais, falares com constante presença da língua italiana (penso que seja mais dialeto – não estudei italiano digo-o pela fala da minha família). Demonstra um especial carinho e amor pela família, evidencia bastante o Nélio, seu pai, e, por coincidência, vale forçar a etimologia: Cor Nélio = coração de Nélio, pois, foi o primeiro filho homem depois de tantas meninas. A riqueza de detalhes, aos mínimos descritos, resgata um valor histórico que mereceria exuberância em arte dramática (teatro, cinema, novela). Para isso, deveria dar um pouco mais de suspense àqueles fatos com destino épico e de aventura que aparecem na vida de Nelo e Pina.

Há um polido cuidado em descrever situações ditas constrangedoras como as necessidades fisiológicas, relacionamentos íntimos, talvez pela educação de seminário, cheia de dilemas católicos, ou mais pelo respeito aos próprios familiares.

 

Atento ao chamamento irônico como no nome do tropeiro Homero de Albuquerque Carvalho Branco, que também não deixa de transmitir uma informação cultural etimológica do nome Albuquerque.

 

O autor tem uma característica peculiar de construir frases, parágrafos, que faz o leitor lembrar clássicos como Pe. Vieira (Sermão da Sexagésima, etc.) ser daria bem escrevendo romance policial ou ficçes para quem jfauna, com representataividade nos seres humanos, afundando-se , numa ordem mais indireta e bem pouco direta, por exemplo: “Aceno  que sim, mais com cabeça feito”. “...Alcançar de seus úberes o leite”. “...Passado dos joelhos o vestido”.

Também é característica do autor a forma de registrar um fato pela época: “...setembro de 53, 1953”. O leitor questiona: por que não ir direto, eliminando o 53?

Serviriam como exercício a estudantes em aulas de Língua Portuguesa.

 

AGORA, TENTANDO RESPONDER A SUA PERGUNTA:

1.            “Cérbero cumpre a função no enredo?”

Começo dizendo que o Cérbero do seu livro exerce um papel inverso ao da mitologia, que era o de impedir ferozmente que os mortos (as pessoas) saíssem do reino/casa de Hades, mas os recebia com toda a cortesia para cativá-los a entrar. O seu Cérbero expulsa desumanamente os colonos de suas terras (suas casas), deixando-os ao Deus-dará. Interpreto que no seu livro ele não chegou a cumprir a sua função com relação a Nélio, pois, manteve-se na posse de suas terras até morrer. Mas, conviveu sempre com a angústia de perdê-las:

“Nelo na angústia da iminência de perder as terras pelos falsários, inspirava-se em tudo para defendê-la, até nos bichos acossados pelos cães que se defendiam e ao seu habitat: perchè no defender la casa sua”. Nelo interrogativo com o seu pungente solilóquio em italiano – página 171.

 

Se o leitor interpretar a terceira cabeça do cão como as grandes preocupações e conflitos interiores, aí a função se cumpriu. “...Preocupava-se Nelo de Chico saber seu nome, pois era desconhecido”. Conflitos interiores: pensamentos remoíam conjecturas de quem eram aquelas terras, hoje dele com escritura pública e que tinham sido motivo de tanto sangue derramado por causa da injustiça, da ganância e corrupção governamental.

Cérbero é a imagem do apetite descontrolado, do poder. Isso pode representar a ganância do governo brasileiro e sua administração na época, solapando o patriotismo, e da empresa Americana, parceiros na chacina de inocentes indefesos. Cérbero mitológico pelo menos era patriota do seu reino. Como Cérbero que guarda as portas do inferno de Hades, os soldados também guardavam as terras. Só que na lenda Cerberus recebia com amabilidade as pessoas, mas não as deixava sair, como eu disse acima. Já na terra, tinham que sair de seu ‘reino’ à força.

 

Para Nelo, a vida jogava-o sempre dentro e diante de problemas difíceis e dava muito duro para vencê-los. Seria uma comparação com o seu Cérbero – vencido pela humilde e forte fé em Deus de Nélio e Pina. Certamente, essa pressão contínua ajudou a ceifar-lhe a vida antes da hora.

 

O fato de essa profecia do eremita não ter existido, vejo-a como um recurso literário de incentivo ao leitor, motivando-o a continuar lendo. O polêmico “Código de da Vinci” está repleto de imaginários. Provavelmente, os historiadores do movimento social do Contestado questionem, mas o autor (Cornélio) tem direito de romancear, mesmo que a exigência de provas pode se assentar em depoimentos dos personagens, quando não houve registro expresso.

 

Cornélio: penso que as comunidades italianas existentes em Santa Catarina se interessariam em conhecer a sua obra, uma vez que se identificarão com os fatos ocorridos com os Marcon e os descendentes gostarão de recordar o que, se não vivenciaram, pelo menos ouviram dos seus antepassados.

 Se você ainda não fez, vale a pena, com apoio da editora, lançar o livro em cada uma dessas comunidades. Provavelmente, esgotarão as primeiras edições.

Se a sua profissão ou lazer é escrever, continue.

Abraços e boa sorte. Oswaldo.

 

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